19
Jun 09

Estivemos a realizar uma viagem desde a mentalidade mítica de deuses e heróis até à era da ciência e da técnica, que aliás é o tema do nosso projecto. No entanto não queremos deixar passar a ideia de que estas são realidades distintas e que uma é presente e outra pertence já ao passado.

Se o homem não sonhasse, não se questionasse, não reflectisse sobre o próprio mito, provavelmente a ciência, como nós a conhecemos, não existia.

A ciência é uma criação do homem e por isso uma criação do sonho e não tomou, de maneira nenhuma, o lugar dos mitos e das lendas. Estas vivem ainda em cada um de nós.

O Natal, a Páscoa e todos os nossos feriados, os filmes que tanto apreciamos, os livros que lemos, as músicas que ouvimos, estão repletos de mitologia, de símbolos, de significado. Todos os nossos valores são-nos ensinados através de lendas e histórias fantásticas. São Martinho deu metade da sua capa ao mendigo mostrando-se generoso, a Bela aprendeu a amar o monstro pelo seu interior e não pela sua aparência, Narciso ensinou-nos a conter a vaidade desmedida, com a cigarra e a formiga aprendemos que é preciso trabalhar e para garantir o futuro…Também a História é feita de sonhos, de vontade de descobrir e conhecer, de desvendar, de explorar, de conquistar. Se não fosse o sonho os navegadores Portugueses nunca se teriam aventurado por “mares nunca antes navegados” “dando novos mundos ao mundo” nem os militares de Abril ousariam conquistar a nossa liberdade. Por mais que nos achemos desprendidos da aura mítica e lendária, todos temos fé em algo. Todos, no mais profundo do nosso ser acreditamos em algo e é a força desse acreditar que nos faz prosseguir.

 


03
Jun 09

Não só os deuses desejaram o saber. Na terra, ainda vivendo em cavernas, o homem lutava para se adaptar ao meio desvendando os seus segredos. O primeiro invento e um dos mais decisivos realizados pelo homem pré-histórico foi a produção de fogo friccionando dois pedaços de madeira. Desde aí, tornou-se imparável destacando-se por entre as demais espécies. Tornou-se um ser urbano e civilizado e surgiu a necessidade de inventar a escrita e a moeda.

O papiro e os hieróglifos, por exemplo, são ainda admirados e demonstram o quão avançada era a civilização egípcia. Para além deles, possuíam altos conhecimentos científicos, matemáticos e astronómicos (basta olharmos a mumificação e a construção exactíssima das pirâmides).

Ao contrário deles, que devido à necessidade desenvolveram a sua agricultura criando arados e calendários agrícolas, as civilizações Incas, Mais e Astecas não conheciam a roda nem o arado e não domesticavam animais. No entanto, e por incrível que pareça, possuíam avançados conhecimentos de astronomia e matemática que lhes permitiram determinar com uma exactidão notável o ano lunar e solar e a trajectória de Vénus criando um calendário muito semelhante aquele que utilizamos hoje.

Uma outra civilização que não podemos deixar de referir nasceu na costa do mar Egeu. Os Gregos edificaram uma nova ideia do homem que tem por base a autonomia, a liberdade e a constante vontade para desvendar as leis da Natureza. Nasceu assim a democracia, a literatura, a filosofia e a arte segundo um conceito que ainda hoje vivemos.

O poder humano assentava apenas em conhecer o que o circundava, o homem não só explorava mas também conquistava. Templários, Romanos, Vikings…desenvolveram as artes da guerra. Batiam-se com força e destreza para demonstrar a sua superioridade sobre o outro apossando-se de territórios e riquezas.

Herói era aquele que com o gume da sua espada e a coragem do seu coração enfrentava o inimigo até ao fim das suas forças, até à morte. Se os deuses determinassem o seu fim morreria da forma mais honrosa: pelos seus ideais, pela sua pátria.

O poder vivia na força pura, na arte de combater e na vontade de vencer, de ir mais além. Hoje essa vontade prevalece mas o poder, esse encontramo-lo no brilhar de uma estrela, na vida de uma célula, na agitação de um átomo. A ciência tornara-se o tudo.

 


21
Mai 09

 

Odin, pai dos deuses nórdicos e senhor da guerra, era também o deus do conhecimento. Conhecimento e sapiência levam ao poder e por isso Odin tinha fome de sabedoria. Conversava com profetas, reis, filósofos e todos aqueles que lhe pudessem aumentar a sua erudição. Para além disso possuía dois corvos – Hugin, que significa pensamento e Munin, que significa memória – que todos os dias voavam pelo mundo em busca de novidades voltando ao anoitecer ao trono do seu mestre para lhas contarem.

Odin sacrificaria tudo por conhecimento… mataria até, se isso lhe garantisse o alargar de horizontes.

 

Segundo a mitologia nórdica existe uma árvore colossal (um freixo) que serve de eixo ao mundo, é Yggdrasil. Está localizada no centro do universo. Na parte mais alta, onde se pode tocar o sol e a lua, jaz a cidade dourada (Asgard) que é a Terra dos deuses e Valhala, o local onde os guerreiros vikings eram recebidos após a morte honrosa nas batalhas. Nas frutas de Yggdrasil estão guardadas as respostas às grandes perguntas da humanidade e por isso são guardadas pelas valquírias e apenas os deuses lhes têm acesso. As suas folhas têm o poder da vida podendo ressuscitar e curar qualquer doença. O tronco, Midgard,  é o mundo material dos homens e as suas raízes profundas estão situadas em Niflheim, os mundos subterrâneos.

 

Odin descobriu a existência de um poço do conhecimento, uma fonte de sabedoria, nas raízes de Yggdrasil, local guardado por Mimir. Mas beber daquela água exigia um preço… preço que Odin estava disposto a pagar! Assim, Odin deu um dos seus olhos em troca de um gole de pura gnose.

A troca do olho pela visão…dar o olho para conseguir ver… não existe maior paradoxo! Mas mostra a ânsia de conhecimento que o Deus tinha e representa, como todo o mito, o próprio homem. A sofreguidão de saber que o homem tem, a curiosidade, a vontade de ir mais além, de descobrir, de compreender…

 

Com o passar dos tempos esta curiosidade nossa característica não estagnou, tomou sim proporções inimagináveis. A ambição e procura desmedida para a conquista do infinito quebra quaisquer limites…

 

 

 


15
Abr 09

São Gonçalo de Amarante

Casamenteiro das velhas

Porque não casais as novas?

Que mal vos fizeram elas?

 

Amarante é uma bela cidade onde se podem encontrar mitos e histórias ao virar de cada esquina. As ruas antigas, o mosteiro, o rio, o antigo convento de Santa Clara, a velha ponte e mesmo a destruição das invasões francesas geram um ambiente rústico e acolhedor propício a que a imaginação voe e a lenda nasça…

O santo padroeiro da cidade é S.Gonçalo, nome que foi dado ao imponente mosteiro que se eleva no centro histórico da cidade e é chamado de S.Gonçalo, casamenteiro das velhas. Mas porquê?

 

 

Conta a lenda que uma velhinha muito pobre e muito feia não conseguira arranjar marido durante toda a sua vida e sentia-se só. Então, dirigiu-se ao mosteiro e suplicou ao santo que lhe arranjasse um noivo para que pudesse enfim casar. Ao saberem disso, os habitantes da cidade riram da pobre velhinha dizendo que ninguém quereria casar com ela, sem fortuna, sem beleza, quase com um pé na cova, porém a velha arranjou um noivo, tão belo que as restantes mulheres morriam de inveja! Forte, rico, sábio e poderoso! Deu-se, pelo que dizem, o milagre do casamento.

 

 

Ainda hoje as jovens se dirigem à figura de S.Gonçalo e puxam o cordel da sua batina pedindo casamento.

 

São Gonçalo de Amarante
Santo bem casamenteiro.
Antes de casar as outras,
A mim casai-me primeiro!

 

 

Se aqueles que nos lêem estiverem interessados em participar no nosso blog, este é o espaço certo! Conhecem alguma lenda amarantina ou característica da zona onde moram ou nasceram e querem partilha-la connosco? Dêem-nos a conhecer os mitos de cada região! Participem! Iremos adorar ler-vos!

 

Atenciosamente,

O grupo de trabalho!

 


12
Abr 09

A lua ia alta no céu e as estrelas brilhavam. Na terra, uma pequena flor despontava por entre o castanho do solo. Um mocho namorava a escuridão com o seu chamamento mágico, depois…o sono chegou e pé ante pé esgueirou-se para o buraquinho da árvore onde vivia.

Era a manhã.

O orvalho beijou o pequeno botão e a florzinha começou a espreguiçar-se lentamente. Primeiro sacudiu as folhinhas, depois… muito suavemente abriu-se aos raios de sol, pétala a pétala. Um pássaro cantou acordando todo o jardim.

A pequena flor viu assim as suas vizinhas, uma a uma, abrirem-se exibindo as suas vivas cores, viu as borboletas acordarem e esvoaçarem em seu redor, e viu a bela e sedutora donzela chegar com o seu sorriso de sol no olhar. Era a Primavera!

 

Na cultura celta a chegada da Primavera era festejada, não a 20 de Março, mas a 1 de Fevereiro num festival chamado Imbolc que exaltava o final do Inverno e a preparação da terra para a nova estação.

Imbolc é um festival religioso celta realizado em homenagem a deusa Brígidh, deusa da poesia, do conhecimento e da fertilidade. A deusa daria um “bom parto” às mulheres, aos animais e à terra abençoando os ventres, os solos e as colheitas.

Enquanto que em vários locais do globo Fevereiro ainda é um mês frio, os celtas encontravam nele o início da Primavera através de sinais dados pela Natureza como o rebentar de certas espécies de plantas e a primeira lactação das ovelhas, Imbolc quer dizer isso mesmo - lactação. Como símbolos adoptaram sementes e flores representando o renascer, uma nova vida, e animais que hibernam como o urso, a marmota, a doninha, o furão e o texugo

 

 

 

 

Segundo a tradição a filha ou a mulher mais velha da casa colhia junco retornando ao lar dizendo – “Be on your knees, and open your eyes, and let blessed Brígidh in!” ao que todos os presentes respondiam – “Oh! Come in, you are a hundred times welcome!”. De seguida a mulher colocava o junco por baixo da mesa e abençoava a casa, a comida e a bebida. Realizava-se também uma procissão à luz de archotes para que os campos fossem purificados e dessem frutos.

Este festival simbolizava, para além do referido, a libertação do antigo, do passado, o renascer e por isso em certos ritos era utilizada uma vassoura que varria o chão em círculos purificando o ambiente e renovando-o.

Os ritos podiam divergir um pouco de região para região mas o simbolismo convergia em todos os casos na despedida do Inverno para dar lugar à Primavera.

 

Em certos povos germânicos a chegada desta estação era festejada em honra de Eostre, a deusa da Primavera, acompanhada por símbolos um pouco diferentes de fertilidade e vida: o Ovo e o Coelho.

O Ovo, tal como a semente, mostra-nos o incessante nascer do Mundo, o aparecer de nova vida, novos seres. Por sua vez, o coelho é um ser indubitavelmente fértil, sendo capaz de originar grandes ninhadas.

Assim, no equinócio da Primavera os indivíduos trocavam entre si ovos coloridos e exaltavam a figura do Coelho… o que nos parece familiar…não?

Exacto, actualmente, a tradição mantém-se mas sujeita a alterações.

Com o aparecimento do Cristianismo, as celebrações primaveris foram abafadas e toda a sua simbologia transportada para a festa cristã denominada Páscoa. Assim, ao pronunciar a palavra Páscoa surgem-nos associados a paixão de Cristo, o coelho da Páscoa acarretando os seus ovos de chocolate e as amêndoas.

O Coelho e o ovo estão hoje presentes na sua forma mais materialista e poucos nos sabem responder o que simbolizam, chegamos mesmo a rir incredulamente perguntando-nos como é possível ser o coelho a transportar os ovos e colocando mesmo a hipótese da existência de uma variedade destes seres capazes de os pôr. Mas como podemos ver, o ovo e o coelho não são apenas meras prendas feitas de chocolate… estão carregados de história e simbolismo.

Todas as nossas celebrações, apesar de atravessadas por crenças religiosas, baseiam-se no poder mitológico. No “nada que é tudo”. Todas representam vida e tentam conferir um significado, colorir a nossa realidade.

 

Embora o Homem esteja corrompido pelo espírito materialista que encostou a estas celebrações, uma parte dela anseia encontrar a família, espalhar sorrisos e partilhar momentos.

 

Nesta Páscoa agarrem vida! Observem-na aproximar-se com um sorriso tímido no rosto, com passos leves e delicados…Renasçam!

 

 

 

 


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