06
Mar 09

Sombras nocturnas, criaturas de temperamento inconstante que se movimentam por entre as trevas e desaparecem com o surgir da aurora. Estes seres espalham assombro e fascínio e põem termo à condição mortal, uma vez que, necessitam de sangue, de vitalidade, para prosseguirem a sua jornada eterna sob os caminhos do mundo. São eles: os bebedores de sangue ou, na vulgar e magnetizante palavra, Vampiros.

 

"The vampire is the night-prowling symbol of man's hunger for - and fear of - everlasting life...The mixture of attraction and repulsion...is the essence of the vampire concept."

Margaret Cárter

 

                Acredita-se que estas criaturas da noite surgiram de cultos obscuros de sociedades orientais, através do Deus da Morte do Nepal, do Lúcifer do Tibete e do Deus do Tempo mongol. Mas com o passar de caravanas nas rotas comerciais do Mediterrâneo, as histórias alcançaram a Grécia, os Balcãs, a Hungria e a famosa Transilvânia (Roménia).

Exemplos dos primeiros mitos de vampiros pertencem às civilizações Egípcia e Grega. O povo egípcio, além de acreditar fielmente na vida pós-mortal, acreditava que estes podiam regressar na forma de vampiros. Essa crença é suportada pelo aparecimento de Sekhmet, a deusa que encarnava o desejo de ingerir sangue humano. Na Grécia antiga existia o mito de Lamia, palavra que ainda hoje significa sugador de sangue.

Entretanto havia surgido a religião Cristã, a religião monoteísta. Com o aparecimento do Cristianismo, a definição de mal sofre certas alterações. Com toda a força concentrada num único ser, o mal assume fraqueza, submissão. Os Vampiros, símbolos de sedução, possessão e morte, são tornados os mestres do pecado juntamente com os alquimistas, feiticeiras e ateus, ou seja, todos se tornam alvos a perseguir e destruir, alvos da Inquisição. Mesmo assim, as semelhanças entre o Cristianismo e o Vampirismo são bastante relevantes. Para começar temos o aparecimento de mitos de origem dos vampiros associados à Bíblia.

         - Anteriormente a Eva, Deus teria criado uma outra mulher para Adão: Lilith. No entanto, esta recusava assumir uma atitude de submissão perante o seu marido, o que conduziu à sua expulsão do suposto paraíso, de Éden. Junto do Mar Vermelho, Lilith foi transformada num monstro nocturno após realizar um pacto com demónios. Assim, esta iniciou uma caça aos filhos de Adão e Eva, matando-os após o nascimento e devorando toda a vida de seus corpos. Mais tarde, Caim mata o seu irmão por ciúme e, enquanto reflectia sobre o seu acto, este encontra Lilith que o alicia e lhe mostra o poder reunido nas nossas veias, mostra-lhe o sangue. Juntos dão origem a demónios e a bebedores de sangue, originam os vampiros. -

            Outro aspecto coincidente reside no acto da comunhão. Cada vez que se deslocam até à missa, milhões de católicos bebem o vinho e ingerem a hóstia, que personificam o corpo e o sangue de Cristo. Com isto, acreditam que alcançarão a vida eterna. Ironicamente ou não, na crença actual, o vampiro necessita de ingerir sangue para salvar na sua imortalidade. Em ambos temos o sangue como essência de todas as criaturas, como símbolo de vida e passe para a eternidade.  

Com o decorrer das eras, inúmeros mitos e lendas sobre criaturas que se alimentavam de seres humanos ou apenas se saciavam no seu sangue sobreviveram e foram transmitidos. Entre os mitos medievais encontramos a condessa que se banhava no “elixir” da juventude, Elizabeth Bathory (banhava-se no sangue de jovens e belas raparigas que assassinava); o homem que ansiava saborear sangue – John George Haige; o estranho cadáver de Arnold Paole… Mas, com o início de um novo século, a figura vampírica abandonou a mitologia e aventurou-se pela literatura, pelo fantástico. Vários autores conduziram e conduzem esta criatura até ao nosso imaginário, erotizam-na e fazem-na despertar em nós o sonho. Alteraram-na, tornaram-na apetecível e fascinante, levando-a a aventurar-se por Hollywood. Entre estes autores destacam-se a novelista Anne Rice (Entrevista com um Vampiro), Bram Stoker (Conde Drácula), John Carpenter e, mais recentemente, Stephenie Meyer (Ciclo da Luz e Escuridão).

Anteriormente, descreviam-nos como seres que envergavam as roupas do seu funeral, ligeiramente deteriorada, a ocultar uma figura cadavérica e uma tez escura e sanguinária. A criatura mitológica é um ser imperdoável e vingativo sendo por isso difícil de compreender esta figura se tornou um dos seres mais sensuais do fantástico. Os vampiros chegam mesmo a possuir uma aura de romantismo e compaixão que se eleva ao estatuto de besta demoníaca que lhe era conferido. Apesar de toda esta transformação, o vampiro da contemporaneidade continua a possuir aquela característica invejável (ou não) que nos fascina intemporalmente… a imortalidade.

 

Imortalidade… Sim, este ser mítico surge para atenuar a maior fraqueza humana: o medo da morte. Basta um ser fascinante e hostil cravar os seus invulgares dentes no nosso pescoço para sermos convidados a viver indeterminadamente. A aurora torna-se invisível aos nossos olhos, a noite dá-nos vida e todos os nossos sonhos esperam concretização. Esquecemos a palavra efemeridade e abraçamos outra que parecia inacessível, abraçamos a eternidade.

 

Mas serão os vampiros reais?

Os vampiros do séc. XXI são bastante diferentes dos que conhecemos dos mitos da antiga Roma e da Transilvânia, e até mesmo dos que se nos apresentam no cinema. Uma versão mortal e menos fantasiosa do mito vagueia pelas ruas, existe.

Embora não se transformem em morcegos nem tenham medo de crucifixos, indivíduos que se auto-intitulam vampiros possuem a necessidade de beber sangue.

Don Henrie, um assumido vampiro afirma beber sangue e diz, numa entrevista dada à National Geographic ( http://www.youtube.com/watch?v=mrmiTsboUe8&NR=1 ), existir uma comunidade de indivíduos que se saciam bebendo sangue humano embora não cacem as suas presas como conta o mito.

 

Mas tratar-se-á esta prática de uma necessidade psicológica? Emocional? Metabólica? Várias teorias se levantam embora se desconheça ainda a verdadeira origem dos vampiros modernos. No entanto, estes vampiros actuais optam por viver nas sombras da sociedade, receando as atitudes de exclusão e as superstições que o homem comum possa tecer à sua volta.

 


28
Fev 09

 

A

penas mais uma noite de lua cheia, uma mera noite de Primavera do ano de 1922. Mas, algo sobrevoava West Drayton Church, uma criatura gigantesca errava sob os túmulos e igreja local.

Vários mortais a observavam, com assombro e temor espelhados no olhar perante a sua extraordinária aparência: era uma negra criatura alada semelhante a um descomunal morcego. Apesar do pânico que apoderava o seu interior, dois agentes da autoridade reuniram um pouco de coragem e iniciaram o encalço a esta criatura. Apercebendo-se da agitação que se iniciara na Terra, a figura soltou um grito fatal, um som agudo e áspero escapou das suas entranhas, paralisando todas as testemunhas. Ao mesmo tempo, alisou as suas imponentes asas e rasgou o céu, desaparecendo perante a limitada visão humana.

O corpo tremia compulsivamente, a voz teimava a soar – estupefactos, paralisados, assustados…assim se encontravam os aldeões.

- É ele! Ah!! Vinte e cinco anos depois a criatura ousa aparecer… Harmondsworth de 1890… - um velho homem clamava as suas conclusões mas ninguém o levava a sério. Afinal tratava-se de um velho, alguém cuja idade fantasiava as vivências, pessoas de século anterior que alimentavam a superstição e a transformavam em realidade. Assim, apesar de este episódio ensombrar os momentos governados pelo subconsciente, todos o ansiavam esquecer e retomar a sua enfadonha rotina. Tudo ia voltando à normalidade.

Já haviam passado algumas semanas. Um novo dia ousava aparecer, uma nova aurora, uma nova aventura. Um homem percorria aquelas ruas, encaminhando-se para um novo dia de trabalho. Apenas dobrou a esquina, algo aparentemente invisível o agarrou e perfurou o seu pescoço. Sentia o sangue abandonar o seu corpo e derramar-se ao longo do chão imundo, sentia o pavimento mais próximo de si, sentia-se desfalecer…Era o fim, a morte…

 

 

Lenda assombrosa de autor desconhecido recriada por LACCAP,

pois quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto.

Ilustração de Victoria Francés

 


16
Fev 09

 

 

 

A lua…

Muitos mitos giram em torno dela tal qual ela se move à nossa volta.

Símbolo de feminilidade e fertilidade foi alvo, desde cedo, da atenção dos mortais.

 

Na mitologia celta representa a mãe tríplice ou deusa mãe e cada uma das suas fases corresponde a uma mulher. (imagem anexa representa a mãe tríplice celta) Todas as crenças celtas são principalmente ligadas ao poder da natureza e da mulher, símbolos de vida e de morte. A lua personifica então a trindade feminina da donzela (crescente lunar que representa a virgindade e a delicadeza), da mãe (lua cheia com o ventre carregado de vida) e da anciã (quarto decrescente que desaparece na noite escura e representa a sabedoria e o poder). A lua nova é Morrígan, é a deusa da guerra que sobrevoa os campos de batalha sobre a forma de corvo, do destino e da morte.

 

 

Da lua surge assim a ideia de ciclo de vida presente em todos os seres. É ela que comanda as marés e é com ela que vemos o tempo passar: o fim e inicio de mais um ano, de mais um mês, de mais uma noite, na nossa breve existência. Um ciclo. Anuncia a chegada da escuridão envolvendo todos os mortais numa aura de mistério e apreensão.

 

O misticismo que a envolve despertou, não só a adoração, mas também o medo.

Os ritos lunares foram, muitas vezes, associados a actos de magia obscuros. Feiticeiras e lobisomens surgem em noites de lua cheia e despertam o pânico nas povoações.

Na idade média muitas mulheres foram perseguidas e condenadas à fogueira, acusadas de cultos sombrios ligados à feitiçaria. Muitos homens foram torturados e julgados sob falso testemunho mas, inundados pelo fervor religioso, todos o consideravam como necessário ao fim do paganismo, para que se guardasse “a pureza da fé”.

 

O homem demonstra, mais uma vez, a necessidade de criar lendas e mitos, em redor daquilo que adora ou teme, seja transformando-o em deus e motivo de veneração ou personificando-o em terrores que o assombram.

 


13
Jan 09

"Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos

 

Como se as tempestades e as correntes marítimas perigosas à navegação não fossem já preocupação suficiente, eis que surge a figura de “postura medonha”, eis Adamastor que decide intervir na rota portuguesa. Este apresentava uma silhueta descomunal, levando à sua comparação com Colosso de Rodes (estátua do Sol, considerada uma das maravilhas do mundo antigo).

Olhá-lo, admirar a sua figura e ouvir a sua voz horrenda e forte, apenas ajudava a que o medo se apoderar dos marinheiros portugueses.

Como ousaram eles navegar por mares proibidos, por aquelas águas que guardava há tanto tempo? Desafiar os mistérios do “húmido elemento/ A nenhum grande humano concedidos”? Tal atrevimento lhes custaria a desgraça futura, onde o menor mal de todos seria a morte.

O discurso do monstro prossegue, tentando conduzir o homem português à derrota, ao abandono daquilo que mais deseja: a Índia. Mas, ainda reside coragem no coração do capitão, a recusa de acreditar em hediondos fados, ainda existia ousadia para enfrentar e descobrir as fraquezas daquele “monstro horrendo”: “Quem és tu? que esse estupendo/ Corpo, certo, me tem maravilhado.”

 

- "Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,

Que para o Pólo Antárctico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.

 

Adamastor é então filho da Terra, pretendia ser o dono dos mares e por isso insurgiu-se contra os deuses, contra Zeus.

Toda esta ambição baseava-se no Amor, na sua paixão desenfreada por Tétis, uma das 50 divindades marinhas;. Após vê-la nua na praia, caiu de amores.

Como a sua beleza não era suficiente para que Tétis correspondesse ao seu amor, Adamastor resolve tomá-la pela força, pedindo ajuda a Dóris, mãe da nereida. Para evitar a guerra, Tétis finge aceitar a proposta mas, tudo não passava de um ardil para enganar o gigante e, ao mesmo tempo, saborear vingança.

Certa noite, Tétis surge a Adamastor. Completamente louco, este corre a abraça-la, não se apercebendo o que realmente era albergado em seus intermináveis braços, não se apercebendo que estava abraçado a um monte e que, aquilo que beijava, não passava de algo inanimado, era apenas um rochedo.

Tudo era ilusão.

Sentindo-se humilhado, este parte “a buscar outro mundo”.

No entanto, todos os seus irmãos haviam sido vencidos por Zeus e transformados em promontórios e montes. Assim, ainda chorando o seu desgosto, começa a sentir o Fado, o castigo perante o seu atrevimento: a carne de Adamastor converte-se em Terra e os ossos em penedos; estava convertido num insignificante cabo, num nada perante a imensidão das águas, perpetuamente cercado pela sua musa, Tétis.

 


"Assim contava, e c’ um medonho choro
Súbito d’ante os olhos se apartou.
Desfez-se a nuvem negra, e c’ um sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos, que Adamastor contou futuros”.

 

 

 

 

 

 


 

 

Será que podemos afirmar a Mentalidade Mítica como algo distante, característico do Homem Primitivo?

 

Não esqueçamos que o Mito surge devido à incompreensão humana perante o Mundo, quando o seu conhecimento e experiência não são suficientes para comprovar algo em que acredita.

Não será, no entanto, necessário enveredar por diversas culturas para descobrir esta versão fantasiosa da realidade, basta recuar uns séculos na história nacional até à época dos descobrimentos portugueses.

 

 

No início do século XV, o conhecimento europeu relativamente ao Mundo era muito reduzido, chegando a ignorar a existência de continentes. Assim, tomavam como verdadeiras inúmeras lendas, levando a que aumentasse o receio do desconhecido e que se acreditasse cegamente nos mais fabulosos seres.

Além da crença em terras inóspitas, ninguém duvidava que existissem dragões que cuspissem fogo, cavalos com asas e um corno na testa, feras monstruosas com partes de touro, águia e leão, que imitavam as vozes das pessoas e que matassem com um simples olhar. Mas a fantasia não se ficava por aqui. Também haveria homens sem cabeça, com olhos e boca no peito, com apenas um pé e de dimensão descomunal, cabeças de forma animal, orelhas tão grandes que permitiam voar…enfim, mitos intermináveis.

Claramente podemos chamá-los de mitos, uma vez que, permitiam que o Homem depositasse o seu medo perante o desconhecido e que, através da transmissão oral, acabavam por tornar-se a verdade. 

 

 

Entre muitos desses mitos, nasce o Adamastor. A sul do Cabo Bojador erguia-se um conjunto de lendas relativamente a esse mundo desconhecido, transparecendo o mistério que envolvia esses lugares e o medo perante o que havia para além desse cabo.

Após tentativas frustradas, várias naus destruídas – o que conferia veracidade às profecias do Adamastor, os portugueses insistem em recusar esses mitos e chegam ao Cabo das Tormentas, que carregava um grande poder mitológico e, do qual dependia a chegada dos portugueses à Índia por via marítima.

Adamastor, baseado na mitologia helenista, representava as forças da Natureza – sob a forma de tempestade –, destruía todo aquele que ousasse invadir os seus domínios e desfazia-se em lágrimas, levando ao encontro dos oceanos Índico e Atlântico. Este gigante seria filho de Terra e ter-se-ia revoltado contra Zeus.

Esta figura representa a oposição face à audácia e valentia dos navegadores portugueses, que seguiam “por mares nunca dantes navegados”.


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